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Consequências do aquecimento global devem ser ainda piores em 2020


Pesquisas mostram ligação entre aumento da temperatura e o crescimento da gravidade e da frequência de incêndios florestais, como o que assola a Austrália.

Paloma Oliveto, postado em 19/01/2020
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2020/01/19/interna_ciencia_saude,821554/consequencias-do-aquecimento-global-devem-ser-ainda-piores-em-2020.shtml

 

Dois mil e dezenove acabou colecionando recordes negativos para o planeta. Na semana passada, um estudo independente da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) demonstrou que aquele foi o segundo ano mais quente da história desde 1880, quando começaram os registros modernos de temperatura. A mesma pesquisa indicou que essa é uma tendência crescente, iniciada em 1960 e acentuada no último quinquênio, sem data para acabar. O artigo da Nasa e outros trabalhos publicados nas primeiras semanas deste ano indicam que, se nada for feito para reverter o padrão, 2020 deverá ser ainda pior.

De acordo com Gavin Schimdt, cientista do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa, ao contrário do que os negacionistas das mudanças climáticas defendem, o aumento de temperatura não está associado a fenômenos climáticos naturais e esporádicos. “A década que acabou de terminar é claramente a mais quente já registrada. Todas as décadas desde os anos 1960 foram mais quentes do que a anterior.” No ano passado, os termômetros marcaram 0,88ºC acima que a média de 1951 a 1980.

“Em 2015, passamos para um território 1ºC mais quente (comparado ao século anterior). É improvável que voltemos atrás”, aponta Schimdt. “Isso mostra que o que está acontecendo é persistente, não um golpe de sorte devido a algum fenômeno climático: sabemos que as tendências de longo prazo estão sendo impulsionadas pelos níveis crescentes de gases de efeito estufa na atmosfera.”

Para o estudo, a Nasa usou dados de mais de 20 mil estações meteorológicas e informações produzidas pelos polos de pesquisa da Antártica, além das medições feitas por navios e boias das temperaturas da superfície oceânica. Os registros marinhos, aliás, são uma das principais ferramentas para avaliar as mudanças climáticas globais, afirma John Abraham, professor de engenharia mecânica na Universidade de St. Thomas e coautor de um estudo publicado, há poucos dias, na revista Advances in Atmospheric Sciences. As notícias trazidas pelas ondas não são boas. “O aquecimento global é real e está piorando. E essa é apenas a ponta do iceberg do que está por vir”, diz o cientista.

A análise mostrou que todos os oceanos do mundo estiveram mais quentes em 2019 do que em qualquer outro momento da história humana registrada, especialmente entre a superfície e uma profundidade de 2 mil metros. O estudo também concluiu que os últimos 10 anos tiveram as temperaturas oceânicas mais altas, sendo o recorde atingido entre 2014-2019. Isso significa que elas não só estão aumentando, mas que o fenômeno está acelerado.

Os pesquisadores compararam os registros de 1987 a 2019 ao período de 1955 a 1986. Eles descobriram que, nas últimas seis décadas, o aquecimento oceânico foi aproximadamente 450% maior que nos anos anteriores, o que reflete, segundo os cientistas, o aumento significativo na taxa das mudanças climáticas globais. “É fundamental entender a rapidez com que as coisas estão mudando”, afirma Abraham. “A chave para responder a essa pergunta está nos oceanos — é aí que a grande maioria do calor acaba. Se você quer entender o aquecimento global, precisa medir o aquecimento do oceano.” As consequências, aponta, são o clima mais extremo, o aumento do nível do mar e as ameaças aos animais marinhos, entre outras.