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Física ao som do rock

O físico Marcelo Guzzo e o cineasta Maurício Squarisi encamparam a ideia de fazer um curta-metragem de animação para divulgar ciência, inciativa inédita


Que relação pode haver entre um desenho animado e o aprendizado de Física de partículas, aquela que estuda a constituição da matéria e a radiação? Para o físico Marcelo Moraes Guzzo, uma coisa tem tudo a ver com a outra. Sua percepção resultou no Projeto Animafísica, cujo primeiro produto é o curta-metragem de animação “Quarks e Léptons”, roteirizado e dirigido pelo cineasta Maurício Squarisi, do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas. O projeto de divulgação científica que une pesquisadores e estudantes do Instituto de Física da Unicamp tem o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e deve produzir mais dois curtas-metragens de animação até o final do ano.

Com mais de 6,2 mil visualizações no canal Animafísica no Youtube, o curta-metragem de nove minutos é voltado especialmente para estudantes dos últimos anos do Ensino Fundamental e também do Ensino Médio. Ao som de rock e com personagens do universo juvenil, o filme passa as noções básicas da Física de partículas de maneira simples e divertida, e atualiza um conceito da própria Física que mudou desde a década de 1960, mas que nas escolas brasileiras ainda é ensinado como era antes desta década.

A necessidade desta atualização ajudou a definir o tema do primeiro episódio da série do Animafísica. “O modelo atômico que aprendemos na escola, que se ensina ainda hoje, embora ele não seja errado, está desatualizado”, afirma o professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp e coordenador do projeto Marcelo Guzzo. Segundo o professor e pesquisador, a noção de que prótons, nêutrons e elétrons são as partículas mais elementares do átomo era vanguarda da Física de partículas em 1950, mas há mais de 60 anos não se pensa mais dessa forma. “O indivisível mesmo são os quarks, que formam os prótons e nêutrons”, esclarece.

“Continuamos falando que o átomo é feito de prótons, nêutrons e elétrons, mas desde a década de 60 já sabemos que as partículas mais elementares do átomo são os quarks e os léptons (que dão nome ao curta-metragem)”, explica Guzzo, que considera este um forte argumento para levar às escolas o Projeto Animafísica.

Rock e Física

Quando assistiu ao filme de animação Café, um Dedo de Prosa, produzido por Maurício Squarisi com participação de Vera Holtz e Wandi Doratiotto, em 2017, o professor imaginou que seria possível produzir um filme que mostrasse conceitos da Física de uma maneira leve e agradável. Ele mesmo se lembra que, quando estudante, não gostava de estudar a matéria, e não imaginava que viria a se tornar pesquisador e professor universitário na área. “Eu não gostava de Física quando eu era estudante porque eu achava uma decoreba chata de fórmulas, e elas são a última coisa que interessam na Física. Ensinam de forma maçante e desinteressante.”

Guzzo assistiu diversas vezes à produção de Squarisi sobre café. Fez contato com o diretor e o curta-metragem começou a ganhar forma. “Foi uma circunstância feliz. O traço simples e elegante de Maurício Squarisi me fez pensar no filme de animação sobre Física. Então veio o desafio de fazer uma parceria”, relembra Guzzo, que teve a aprovação da Fapesp no início de 2018 para produzir três episódios e já apresentou os dois temas seguintes: neutrinos e raios cósmicos, previstos para serem lançados entre o final de 2020 e início de 2021. “A utilização do curta-metragem de animação como ferramenta de divulgação científica é inédita e inovadora”, diz o professor.

Após algumas aulas de Física para o Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, Guzzo e sua equipe entregaram o material teórico para Squarisi, que teve liberdade para criar o roteiro e os personagens. Pensando no público alvo, o diretor fez questão de criar uma protagonista mulher que é skatista e tem uma banda de rock chamada Raios Cósmicos. “Esse nome me encantou”, diz Squarisi, referindo-se ao nome do departamento do Instituto de Física da Unicamp onde são realizadas as pesquisas em Física de partículas. A produção total demorou um ano.

Nas escolas

“Quarks e Léptons” conta a história de Mari, que é filha dos professores Pedro e Duda. Ela faz uma aposta com o pai para conseguir ingressos para assistir à sua banda preferida. As noções sobre o modelo atômico e partículas elementares são inseridas ao longo do roteiro. “Tive toda a liberdade de criar a história”, conta Squarisi que utilizou a técnica do desenho animado em papel e produziu sozinho “para não perder o traço”. O diretor inseriu no roteiro ingredientes de humor, música e pequenas brincadeiras para falar sobre Física de partículas com o objetivo de se aproximar do público jovem.

Para Squarisi, ainda não se despertou no Brasil para a animação como ferramenta potencial para a educação e a divulgação científica. “Pensam na animação só como divertimento, e há muito tempo eu falo que é um instrumento de educação. A filmografia do nosso Núcleo de Cinema tange a educação. Este agora foi o primeiro de divulgação científica”, comemora o diretor.

O curta-metragem já foi apresentado em escolas públicas e privadas. Em 2019, foi formada uma equipe de estudantes de licenciatura em Física da Unicamp para elaborar vídeos de apoio, com explicações detalhadas sobre os conceitos que aparecem no filme. Também está disponível na internet um vídeo dos bastidores da produção.

De acordo com Guzzo, outros professores da Unicamp que conheceram o projeto aprovaram a ideia e também se interessaram em produzir filmes de animação para divulgar suas pesquisas. “Há muitas maneiras de ensinar ciência que não passam por fórmulas ou aulas chatas. Você pode ir direto para o desenvolvimento de projetos. Ciência não é uma coisa que as pessoas não se interessam, mas há outras formas de aprender.”

Desafios

O Projeto Animafísica faz parte do projeto temático “Desafios para o Século XXI em Física e Astrofísica de Neutrinos”, que tem a coordenação geral do Físico e professor da Unicamp Orlando Luis Goulart Peres. “A proposta é despertar a curiosidade dos estudantes, aproximando o público em geral do universo da pesquisa e da Física de modo prazeroso”, diz Peres.

Apesar de estar disponível para visualização no Youtube, o objetivo para 2020 é apresentar o projeto a mais escolas e professores, para levar o conteúdo para as salas de aula e alcançar um público ainda maior. “O estudo da Física de partículas tem grande potencial de impacto no futuro da ciência no Brasil. Por isso estamos muito entusiasmados em dialogar com a nova geração, e, quem sabe, motivar estudantes a juntarem-se a nós”, acrescenta Guzzo.


Raios Cósmicos

O Departamento de Raios Cósmicos do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp, onde atua a equipe do Animafísica, foi criado há 25 anos pelo físico César Lattes. O projeto temático, que se renova a cada cinco anos, trabalha hoje com os “Desafios para o Século XXI em Física e Astrofísica de Neutrinos”. De acordo com Guzzo, há muitos experimentos no mundo tentando desvendar os mistérios relacionados aos neutrinos, uma partícula difícil de ser detectada e que atravessa quase toda a matéria que existe. “Eles nos atravessam, atravessam a parede, as estrelas, os planetas. É muito abundante. Em maior número que os neutrinos só existe no mundo fótons, partículas de luz. Pra cada elétron que existe no universo, estima-se que haja 10 bilhões de neutrinos, que é a especialidade do grupo de pesquisa do Departamento de Raios Cósmicos da Unicamp. Estamos tentando investigar porque não sabemos tudo ainda de suas propriedades.”

Serviço:
- Site do projeto Animafísica: www.animafisica.com.br
- Curta-metragem “Quarks e Léptons”: https://youtu.be/Fo6Pz_3Dil4
- Saiba mais nos canais Animafísica:
www.youtube.com/channel/UC4T0iWBg9oQhiXuyw9x2G_w
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Fonte:

https://correio.rac.com.br/_conteudo/2020/01/metropole/895748-fisica-ao-som-do-rock.html