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Febre: aliada ou inimiga?

Hipócrates, pai da medicina ocidental, proclamava, há 500 anos, que as moléstias são um desequilíbrio entre os humores* do corpo e que a febre constitui uma tentativa de restaurar esse equilíbrio eliminando humores em excesso.

 

Em épocas mais recentes, como no século XVII, a febre teve seus defensores, como foi o caso de Thomas Seydenham, considerado um dos precursores da Epidemiologia. Ele descrevia a febre como um mecanismo poderoso com que a natureza brinda os seres vivos para derrotar seus inimigos.

 

A partir do início do século XX, a febre passou a ser considerada muito mais como inimiga do que aliada. 

 

Essa mudança coincidiu com a intensificação do uso da aspirina, cuja propriedade de combater a dor é, ao mesmo tempo, baixar a febre levou médicos e pacientes a associar a diminuição da dor à necessidade de reduzir a temperatura. A partir daí, numerosas drogas foram comercializadas e tiveram seu uso incentivado através de intensa propaganda.

 

Hoje, são comuns propagandas dispendiosas veiculadas pelo rádio e pela televisão que proclamam as qualidades de medicamentos que eliminam a febre e, com isso, restituem a saúde. No entanto, pesquisas levam a crer que, até certo ponto, a febre pode ser uma aliada.

Experimentos realizados com lagartos têm levado pesquisadores a interessantes conclusões a respeito da febre e suas funções.

 

Os lagartos, como todos os répteis, têm seu corpo aquecido e resfriado de acordo com a temperatura do ambiente em que estão. Entre os vertebrados, essa característica é também encontrada nos anfíbios, ao contrário das aves e mamíferos, cuja temperatura interna do corpo independe da temperatura do ambiente.

 

Partindo dessa característica dos lagartos, os pesquisadores fizeram inicialmente, um experimento para descobrir a que temperatura uma certa espécie de lagarto, iguana, tende a manter a temperatura do corpo. Colocaram esses lagartos numa caixa com uma das extremidades mantida a 50 °C e a outra a temperatura ambiente. Os lagartos se moveram de um microclima a outro até que sua temperatura interna se estabilizou em torno de 38 °C, que os pesquisadores passaram a considerar como temperatura normal para esses lagartos.

 

Tendo descoberto a temperatura normal dos iguanas, os pesquisadores procuraram verificar esses animais, à semelhança de muitos outros, desenvolvem febre em resposta a uma infecção.

Injetaram nos lagartos determinadas bactérias e observaram que eles permaneceram maior tempo na porção mais aquecida da caixa, até conseguirem uma elevação de 1 a 2 °C acima dos 38 °C.

 

Na última etapa dos experimentos, infectaram 34 lagartos e os dividiram em dois lotes iguais. A um lote foi dado um medicamento que suprime a febre. Ambos os lotes foram então colocados num ambiente com várias temperaturas. Os lagartos que não tomaram medicamento procuram os locais mais aquecidos e ficaram com a temperatura acima do normal durante vários dias. Depois, procuraram locais mais frescos e voltaram a temperatura normal. Desse lote, apenas um morreu em conseqüência da infecção. Um lote que recebeu o medicamento supressor da febre, mais da metade morreu.

 

Os pesquisadores reforçaram suas conclusões, mantendo lagartos doentes em uma série de incubadoras, cada qual a uma determinada temperatura. De novo constataram que os lagartos mantidos à temperatura febril sobreviveram, enquanto muitos dos que foram mantidos à temperatura normal (38 °C) ou um pouco abaixo morreram. A 34 °C, temperatura mais baixa, todos os lagartos morreram.

 

Esses resultados indicam que a febre constitui uma defesa do organismo.

 

O intrincado mecanismo de regulação da temperatura e da ação da febre como defesa mostra o grau de refinamento dos programas que regem o funcionamento dos organismos vivos, até os mínimos detalhes: tudo pode ser explicado a partir dos átomos, suas ligações e energias.

 

* Humores: certas substâncias líquidas existentes no organismo.

** Adaptado de TEIXEIRA JUNIOR, Antonio de Souza, Revista de Ensino de Ciência, n. 12, p. 7-9.