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Aproveitando a força dos ventos

Izabela Pires
Agência Meio/Universidade
Federal de Pernambuco

 

País deve ter 1.600 turbinas eólicas para geração de energia elétrica até 2005

 

Os ventos quase incessantes de todo o litoral brasileiro, até agora aproveitados apenas para bombear água, em cata-ventos rústicos, passarão a ser usados para gerar energia elétrica. Até o ano 2005, segundo estimativa do Fórum Permanente de Energia Renovável, coordenado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, o país deverá ter 1.600 turbinas eólicas, cada uma delas com capacidade máxima de 600 quilowatts-hora (kWh). O primeiro passo para estimular investimentos no setor foi dado com a expedição do decreto nº 2.003, que regulamenta a exploração desse tipo de energia por empresas privadas.

Para que essa estimativa se torne realidade, porém, é preciso obter mais dados sobre o comportamento dos ventos e a adaptação das turbinas às condições do país. As pesquisas nessa área vêm sendo realizadas pelo Centro Brasileiro de Testes de Turbinas Eólicas (CBTTE), ligado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que instalará sua segunda turbina em Olinda. A primeira, com 18 m de altura e 13 m de diâmetro na área percorrida pelas hélices, produz 80 mil kWh por ano, o que garante a iluminação externa de 10 prédios ou monumentos históricos. A nova turbina poderá gerar até 500 mil kWh por ano, o bastante para iluminar 60 prédios, como as igrejas das ladeiras históricas de Olinda.

Outro estado nordestino, o Ceará, pretende investir US$ 100 milhões - dinheiro dos governos brasileiro e japonês - na geração desse tipo de energia. Uma licitação da Companhia de Eletricidade do Ceará (Coelce) busca empresas interessadas em implantar a maior usina eólica da América do Sul. O projeto prevê a instalação de 100 turbinas com capacidade máxima de 60 MWh por ano, o que equivale a 8% do consumo residencial de Fortaleza, e a usina ficará em uma área de mil hectares na praia de Paracuru, segundo o engenheiro Elias Carmo, da Coelce.

A Companhia de Eletricidade de Pernambuco (Celpe) também quer ampliar sua parceria com o CBTTE, iniciada com a instalação de uma turbina em Fernando de Noronha. Essa usina garante 10% das necessidades de energia da ilha, mas já em 1998 a Celpe pretende aumentar esse percentual para 40%. "Muitas ilhas, em outros locais do mundo, obtêm dessa forma metade da energia de que precisam", enfatiza Everaldo Alencar Feitosa, coordenador do CBTTE.

Outros estados brasileiros estão interessados nessa energia: Santa Catarina, Paraná, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul já começaram a avaliar o comportamento dos ventos. No Nordeste, os equipamentos registraram ventos com velocidade média de 8 m/s, nível excelente para geração de energia eólica, segundo os técnicos. Como esse dado foi obtido na época da vazão do Rio São Francisco, que reduz a produção das hidrelétricas da região, as turbinas poderão compensar essa perda.

 

Alternativa atraente

A energia eólica tornou-se uma alternativa viável a partir da crise do petróleo nos anos 70. Existem hoje no mundo 20 mil turbinas em operação, com uma capacidade total de geração de 6 mil kWh por ano (ver "Cataventos aerodinâmicos"). Até o ano 2000, de acordo com a Agência Internacional de Energia, que reúne 16 países industrializados, será atingida a marca dos 10 mil MWh. Com a ameaça de esgotamento das fontes energéticas tradicionais (capacidade hidrelétrica, carvão e, mais tarde, o petróleo), muitos países investem cada vez mais na busca de fontes renováveis, como a solar e a eólica. O CBTTE faz parte desse esforço: as pesquisas e a instalação das duas turbinas custaram em torno de US$ 1 milhão, fornecido pelo governo de Pernambuco e por ministérios e instituições de pesquisa do país e da Europa.

A energia eólica é atraente por não causar danos ambientais, ao contrário das usinas hidro e termoelétricas, e ter custo de produção mais baixo em relação a outras fontes alternativas, como a geração nuclear, a queimada de biomassa e a conversão da luz solar. Segundo Feitosa, "o custo de um MWh de energia eólica está entre US$ 40 e US$ 60, tornando-a competitiva mesmo em relação às hidrelétricas, que apresentam o mais baixo custo de produção".

Exemplo de exploração bem-sucedida é a Dinamarca, segundo produtor mundial de energia eólica. Metade da energia elétrica consumida na região Norte daquele país já tem origem nos ventos. As empresas dinamarquesas que compram essa energia pagam às cooperativas de produção 90% do valor de mercado da mesma quantidade de energia convencional. É um negócio rentável, já que a caderneta de poupança local paga 8% de juros ao ano, enquanto a produção de uma turbina rende 12% em igual período. "Assim, os fazendeiros cuidam de suas turbinas com o mesmo carinho que dispensam aos seus animais", diz o coordenador do CBTTE.

Mesmo em países "mais" capitalistas há lucratividade. Nos Estados Unidos, líder mundial na geração de energia eólica, uma usina privada da Califórnia opera 16 mil turbinas, gerando 1,5 bilhão de kWh por ano, o que equivale a todo o consumo da cidade de São Francisco.

Uma das poucas reclamações contra a geração de energia a partir dos ventos é a alteração da paisagem causada por centenas de torres metálicas enfileiradas. Os europeus solucionaram o problema com o sistema offshore, ou seja, a instalação de turbinas no mar, em áreas de baixa profundidade (3 m a 4 m), distantes da terra entre 1 km e 5 km. Everaldo Feitosa, no entanto, afirma que espaço para instalar as turbinas não é problema para o Brasil, "o que só confirma o imenso potencial desse tipo de energia no país".