Clique aqui para fechar esta janela Voltar a página anterior
O que há de mais assustador em relação ao aumento da temperatura planetária é o risco de derretimento das calotas polares. Se isso ocorrer, a elevação do nível do mar causará catástrofes de proporções bíblicas. Cidades costeiras, como o Rio de Janeiro, seriam inundadas. Quanto a isso, existem boas novas: a Antártica, onde se acumula a maior massa de gelo do planeta, não está derretendo-se. Dois estudos divulgados neste mês, os mais intensos já realizados sobre o assunto, mostram que, em lugar de estar subindo, como se imaginava, a temperatura na maior parte do continente caiu 1 grau nos últimos quinze anos. A notícia é tranqüilizadora, pois, se o gelo do Ártico se derretesse, o nível do mar se elevaria entre 4 e 5 metros. Se a Antártica toda virasse água, o mar subiria entre 60 e 70 metros.
As previsões equivocadas a respeito da temperatura na Antártica explicam-se, em parte, por causa da analogia com o Ártico, região estudada com maior intensidade. O Ártico não é um continente, como a Antártica, mas uma calota de gelo boiando sobre o mar, e suas geleiras estão realmente ficando menores. Muitos cientistas imaginaram que o mesmo ocorria no pólo oposto. “A crença no aquecimento decorre também do fato de a maior parte das estações de pesquisa estar na Península Antártica, que é mais quente em razão da influência de correntes marítimas”, diz o geólogo americano Peter Doran, da Universidade de Illinois. A temperatura na península, a porção antártica mais próxima da América do Sul, cai a 30 graus negativos no inverno. No interior, chega a 70 graus abaixo de zero.
À
frente de um grupo de pesquisadores, Doran comprovou o resfriamento ao comparar
planilhas de temperatura do ar e de velocidade dos ventos emitidas por estações
meteorológicas espalhadas por toda a Antártica. Outro estudo, conduzido em
conjunto pela Universidade da Califórnia e pela Nasa, a agência espacial
americana, encontrou evidências de maior quantidade de gelo em fotos tiradas
por satélite. Em uma região de tamanho equivalente a quatro vezes o Estado de
São Paulo, na parte ocidental da Antártica, a camada de gelo está mais
espessa, e não mais fina. Isso ocorre porque as correntes glaciais, espécie de
rios de gelo que se movem ao ritmo moroso de meio quilômetro por ano, estão
desacelerando ou pararam de fluir. Essas correntes normalmente desembocariam
numa grande geleira chamada Plataforma de Ross.
Ironicamente, com o gelo represado, a plataforma pode ficar mais fina e se
quebrar em vários icebergs, o que viria a afetar as correntes marítimas de
todo o mundo. “Nossa aposta é que isso deve acontecer em 300 anos e terá
como principal conseqüência o resfriamento do clima global”, disse a VEJA
Slawek Tulaczyk, da Universidade da Califórnia, que chefiou a pesquisa.
Há consenso entre os cientistas de que o século XX foi o mais quente já registrado na história humana. Mas eles divergem sobre a causa do aquecimento. É quase certo que a ação do homem exerce influência, mas ninguém sabe direito em que proporção. A Terra vive um ciclo natural de eras glaciais, que duram em média 100.000 anos cada uma. A última, em que as geleiras chegaram até onde hoje ficam Chicago e Berlim, terminou há 10.000 anos. É mais ou menos o período de tempo que costuma separar as eras glaciais. Ou seja, em vez do calor, pode ser que um frio de rachar esteja batendo a nossa porta.