|
Monica Weinberg
A primeira razão, segundo aponta
o estudo da OMS, é o preço dessas operações, de 3 000 reais em
diante. Outra tem relação com um assumido desconhecimento sobre a
tecnologia e os resultados obtidos com a cirurgia. De acordo com os
especialistas, há, sim, casos em que o resultado não é tão bom
quanto o esperado, mas eles se restringem a 5% do total. No geral,
miopia, astigmatismo e hipermetropia – três dos problemas ópticos
mais freqüentes no Brasil – são eliminados por meio de laser, e não
de bisturi, em minicirurgias realizadas em minutos. Ao lado, os
especialistas chamam atenção para o bê-á-bá dos dois tipos mais
comuns (e eficazes) de intervenção, traçam um panorama do que
esperar no pós-operatório e dizem por que, afinal, essa é uma
hipótese que deve, ao menos, ser considerada.
Tipo de cirurgia:
PRK
(Photo-Refractive Keratectomy)
Como é: com os olhos sob
efeito de um colírio anestésico, aplica-se um jato de laser sobre a
córnea. Ao longo de um minuto, o laser remove justamente as
partículas de tecido que determinam a falha de curvatura na córnea.
Se alguém acumula miopia e astigmatismo, por exemplo, pode
submeter-se a duas (ou até três) dessas minicirurgias, uma após a
outra
Pós-operatório: as pessoas costumam se queixar de dor e de uma
sensação de areia nos olhos na semana seguinte à cirurgia. É preciso
ainda usar lentes de contato protetoras, aplicar colírio para manter
a umidade dos olhos e tomar antiinflamatórios
Indicação: para os casos mais leves de astigmatismo e hipermetropia
(até 2 graus) e de miopia (4 graus)
Nível de acerto: 95% das pessoas têm o problema eliminado. As
restantes – em geral quem possui córneas finas demais – permanecem
com graus residuais
Comentário dos especialistas: a técnica a laser é um avanço em
relação à velha operação com bisturi, praticada até a década de 90.
Costumava não funcionar por uma razão: de fato eliminava a miopia,
mas freqüentemente causava hipermetropia. Isso porque, sem o grau de
precisão do laser, os médicos retiravam tecido em excesso da córnea
Preço: 3 000 reais
Tipo de cirurgia:
Lasik
(Laser in-Situ Keratomileusis)
Como é: à anestesia com
colírio segue-se um jato de laser com o objetivo de deslocar da
parte externa da córnea uma lasca finíssima, do tamanho da pupila.
Com isso, tem-se acesso à porção interna da córnea, onde estão as
falhas mais acentuadas de curvatura. É lá que incidirão novos feixes
de laser, dessa vez para corrigir os eventuais desvios. Se a pessoa
sofrer de miopia e astigmatismo, por exemplo, poderá resolver os
dois problemas na mesma operação. Isso feito, encaixa-se novamente a
"tampa" que havia sido deslocada da córnea. Ela voltará a aderir aos
olhos
Pós-operatório: não é dolorido; exige, no entanto, certos cuidados
básicos até que a córnea descolada durante a cirurgia se fixe
novamente. São cerca de quinze dias sem coçar os olhos, evitando
ainda lugares empoeirados. O pó em excesso pode causar infecções
Indicação: quando os problemas são mais acentuados. Leia-se: a
partir de 2 graus de astigmatismo ou hipermetropia e de 4 graus de
miopia
Nível de acerto: 95% das pessoas saem totalmente curadas. As outras
(de novo, aquelas que têm a córnea mais fina) continuam com cerca de
1 grau do problema que motivou a operação
Comentário dos especialistas: é uma operação menos dolorosa, porém
de recuperação mais penosa do que a da PRK. Muita gente sai da
cirurgia sem saber que pode enxergar embaçado durante um mês, caso a
córnea removida demore a aderir aos olhos
Preço: 6 000 reais
|
Digital Vision/Royalty Free
 |
O
empresário Marco Antônio Araújo, 45 anos, submeteu-se a uma
cirurgia da qual saiu sem 8 graus de miopia e 2 de
astigmatismo.
"Era escravo dos óculos. É uma alegria ver o mundo sem eles" |
A hora do diagnóstico
Antes da cirurgia, é
necessário submeter-se a exames que ajudam no diagnóstico do
problema e fornecem dados valiosos à operação. Para que serve cada
um:
Paquimetria
Por meio de um feixe de luz, mede-se a espessura da córnea para
saber exatamente quanto retirar dela. Para as pessoas com córneas
finas demais – menos de 0,40 milímetro de espessura –, a cirurgia é
contra-indicada. Também está cientificamente provado que, para quem
tem córneas entre 0,40 e 0,52 milímetro de espessura, é mais difícil
sair da operação tendo eliminado 100% do problema. Isso porque há
escassez de tecido a ser removido
Topografia
Produz um mapa da
superfície da córnea. Por suas irregularidades, ela costuma ser
comparada ao chão da Lua. É justamente das regiões mais salientes,
devidamente apontadas pelo exame, que o médico poderá retirar mais
tecido – intervenção necessária para a correção da curvatura. Esse
exame é feito em conjunto com a paquimetria
Análise de frente de ondas (ou wavefront)
Um aparelho envia aos
olhos mais de 1 000 pontos luminosos, capazes de flagrar qualquer
minúsculo desvio da luz. Com isso, além de tudo o que os demais
exames informam, este ainda consegue revelar pequenas imperfeições
nas regiões mais internas dos olhos. Dessa forma, o médico pode
corrigi-las no momento da operação, o que evita a necessidade de
nova intervenção no futuro. Acontece em 10% dos casos
Comentário dos especialistas:
o wavefront custa três vezes mais do que os outros dois
exames juntos, mas é um investimento de bom custo-benefício, por
reduzir o risco de nova operação a médio prazo
Uma questão de curvatura
Os problemas de visão e como a
operação ajuda a eliminá-los
|
Astigmatismo
O que é: a curvatura da córnea é irregular. Por isso, a luz
que incide sobre ela chega à retina em ângulos alterados – o
que produz a imagem embaçada
Efeito da cirurgia: ao retirar o excesso de tecido da região
mais protuberante da córnea, cria uma superfície uniforme e
elimina, assim, o astigmatismo |
 |
|
 |
Hipermetropia
O que é: a córnea praticamente prescinde de curvatura, o que
atrasa o encontro dos feixes de luz. Isso só vai ocorrer
depois da retina. Pessoas com esse problema não conseguem
ver de perto com a devida nitidez
Efeito da cirurgia: remove os tecidos periféricos da córnea
com o objetivo de lhe conferir uma curvatura |
|
Miopia
O que é: a curvatura da córnea é acentuada demais. Ao
contrário da hipermetropia, o problema aí é que a imagem se
forma antes da retina. Tira o foco das imagens vistas de
longe
Efeito da cirurgia: deixa a córnea mais plana ao retirar
tecido da parte central dela |
 |
Fontes:
Andrea Kara José (da
Universidade Federal de São Paulo); César Lipener (da
Universidade Federal de São Paulo); Francisco Ventura
(designer de óculos); Miguel Ângelo Padilha (da Sociedade
Brasileira de Oftalmologia); Newton Kara José (da
Universidade de São Paulo); Renato Ambrósio (da Universidade
Federal Fluminense); Wallace Chamon (do Conselho Brasileiro
de Oftalmologia)
|